Por Bianca Donatangelo
Berlin-Alemania

Neste documento estão três de minhas mais recentes reportagens, que forneço a vocês em forma de parceria:

1. Tema político – O Perigo Neonazista

2. Tema cultural – “Verzaubert 2001”, festival de filmes homossexuais

3. Tema geral/feminino – “Frei Leben”, concerto beneficiente à causa contra FGM

 

O Perigo Neonazista O partido alemão da extrema-direita planeja reunir mais de 3000 manifestantes durante uma marcha em Berlim no começo de dezembro. Pesquisas recentes apontam que a opinião pública ressente ideais xenófobos e discussões sobre o neonazismo se intensificam. por Bianca Donatangelo* Uma força policial de 6000 homens foi escalada para manter a ordem durante um protesto neonazista em Berlim no próximo dia 1 de dezembro, nesta que será a maior passeata extrema-direita a ocorrer na atual capital alemã desde o fim da 2a. Guerra Mundial, em 1945. A facção política do movimento neonazista, o NPD (Partido Nacional Democrático), planeja um desfile de 3000 partidários e simpatizantes, dentre eles radicais da direita espanhola e belga.

A intenção é protestar contra uma exposição das Forças Armadas que critica os campos de extremínios do nazismo. O lema da marcha será o mesmo que há quase cinco anos, em Munique, 4500 neonazistas gritaram: “nossos pais não são criminosos”. Sem possibilidades de suspender o protesto judicialmente, a polícia trabalha com duas hipóteses.

A primeira é a possível presença de extremo-esquerdistas e militantes adversários ao nazismo na manifestação do NPD, o que aumentaria a multidão e provavelmente resultaria em conflito. A segunda diz respeito ao trajeto da marcha. De acordo com documento entregue à justiça em agosto passado, o protesto pretende atravessar os bairros centrais de Berlim entre 13 e 18 horas no sábado em questão, o que também causaria maior repercussão e juntaria mais curiosos. Nesta terça-feira, dia 13, representantes do NPD e da polícia se reuniram para decidir alguns pontos da manifestação, inclusivo o trajeto.

Acertou-se apenas, entretanto, que os protestantes deverão marchar uniformizados e não carregar nada que aluda a uma bandeira nas cores branca, preta ou vermelha. “Estaremos alertas para o estado de emergência”, disse a porta-voz da secretaria de defesa, Beate Barner. A exposição que causou revolta entre os neonazistas é a mesma que, em 1999, foi suspensa do Instituto de Pesquisas Sociais de Hamburgo por falta de dados completos.

Ela apresenta documentos, fotos e textos extraídos do acervo militar, recolhidos após a queda de Hitler e, segundo o NPD, não representa a total verdade. “A verdade”, afirma Frank Schwerdt, líder do partido, “vamos discursar em público neste protesto”. Além de Schwerdt, os líderes neonazistas Christian Worch e Thomas Wulff, o político Horst Mahler e representantes da geração que vivenciou a guerra discursarão no evento.

Opinião pública – Logo no começo do ano, a Alemanha reportou um aumento de 40% nos casos de ataques racistas entre 2000 e 2001. Ao todo, aconteceram no ano passado 13.753 crimes e incidências ligados à extrema-direita, à xenofobia e ao anti-semitismo. “No dia 3 de outubro, dia do 11o. aniversário da reunificação da Alemanha, eles eram 900 em manifestação pelas ruas de Berlim. Dois meses depois, eles são 3000. Será que não foi suficiente o que já passamos?”, perguntam-se imigrantes, judeus e os próprios alemães por todo o país. Contudo cresce o número de pessoas que aprovam o ideal nazista. A nação está quebrando-se dentro do seu próprio sistema de altos impostos e farta assistência social, acumulando uma taxa de desempregados que atinge 4 milhões de indivíduos.

O preocupante fato está atuando como isca a favor deste movimento que prega a homogeneização do povo alemão. Como consequência, uma parte da opinião pública volta seus ânimos e atenções contra os estrangeiros imigrantes. Uma pesquisa do instituto Forsa mostra que 46% dos alemães acham que o país tem muitos estrangeiros. Na região da antiga DDR, 47% dos jovens alemães, entre 14 e 25 anos, acreditam que o nazismo teve pontos positivos. Nas escolas, 62% disseram que o nazismo teve o seu lado bom e 15% admitiram que a ideologia nazista é “em si uma boa idéia”.

Em Berlim, os resultados da recente eleição, realizada em 21 de outubro, mostram que 9,1% dos votos foram direcionados aos candidatos do partido neonazista. O plano de extinguir o NPD está relativamente congelado nas prateleiras do governo.

*jornalista brasileira residente em Berlim E-mail: biadona@hotmail.com Telefone: *49 30 4991 5419

O feitiço está no ar

“Verzaubert”, o maior festival internacional do cinema homossexual da Europa, estará percorrendo entre 21 de novembro e 12 de dezembro cinco cidades alemãs com produções inéditas e filmes premiados. por Bianca Donatangelo O nome significa enfeitiçado, encantado, e é dessa forma que o festival de cinema ‘Verzaubert’ espera deixar o público em sua 11a. edição.

Com sucesso difundido por toda a Europa, o evento exibirá 80 produções internacionais, entre curtas e longa-metragens. Uma ampla versatilidade de filmes que pretende revelar, por meio de críticas ousadas, temas polêmicos, comédias românticas ou épicos regionais, as multifacetas da sexualidade humana em cinemas de Munique, Frankfurt, Colônia, Hamburgo e Berlim. O festival será aberto com o filme “Hedwig and the Angry Inch”, cujo roteiro foi escrito, protagonizado e dirigido por um veterano dos musicais da Broadway, John Cameron Mitchell. A história narra a vida de Hansel, um homossexual em plena Berlim comunista dos anos 80, que passa por uma cirurgia desastrada de mudança de sexo e consegue fugir para os Estados Unidos.

O rapaz, agora uma garota chamada Hedwig, parte então numa busca tragicômica por sua “outra metade” e aplica sua sensibilidade à música, tornando-se cantora e compositora. Com belas cenas, o filme revela o heroísmo de alguém que reconquista a auto-afirmação, ora abalada tanto social como pessoalmente, enquanto aproveita para realçar a trajetória do rock durante as últimas duas décadas. Ganhador do prêmio Teddy 2001 por melhor filme homossexual, “Hedwig and the Angry Inch” foi produzido de forma independente por Christine Vachon, quem o ‘Verzaubert’ estará homenageando em 2001.

Rainha do chamado “New Queer Cinema”, que pode ser traduzido como o Novo Cinema Homossexual, a produtora assina há 12 anos quase todos os filmes memoráveis sobre a vida sexual moderna, desde “He was once” (1989) até “Fine and Mellow” (2001), passando por “Kids”, “Stonewall” e o premiadíssimo “Boys don’t Cry”. Além deste último e do filme de abertura, as produções “Velvet Goldmine”, “I Shot Andy Warhol”, “Swoon” e “Series 7” estarão sendo exibidas na mostra em homenagem à Vachon, cuja participação em pessoa no evento foi confirmada em caráter extra-oficial pela organização.

Entre as sensações deste ano, estão o filme “Julie Johnson” – uma crítica audaz com toque feminista sobre um relacionamento amoroso representado pelas artistas Lili Taylor e Courtney Love – e a série de películas espanholas e latino-americanas, dentre as quais figuram o épico gay “Plata Quemada – Burnt Money”, uma produção trinacional (Argentina, Uruguai e Espanha) que se baseou nos assaltos mais sensacionais da América Latina no século passado; e “Km.0”, uma mistura de histórias multissexuais dos diretores espanhóis Juan Luis Iborra e Yolanda Serrano, os mesmos de “Amor de Hombre”, sucesso do festival em 1998. Na seção “Queer Focus”, o festival repete a dose de conscientização do ano passado, quando apresentou cinco dos mais chocantes filmes a respeito da violência sexual contra crianças, e mostra “Anatomy of a Hate Crime”.

O documentário, uma produção da MTV norte-americana, investiga as circunstâncias da morte de Matthew Shepard, um estudante homossexual que, em 1998, foi torturado até a morte no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. Parte da programação do ‘Verzaubert’ deste ano será veiculada na 9a. Febiofest, o maior festival de filmes do leste europeu, que ocorrerá nas cidades tchecas de Praga, entre 24 e 31 de janeiro, e Brno, de 4 a 8 de fevereiro.
Munich 21/11 a 28/11/2001 Atelier / City / Cinema
Frankfurt 28/11 a 05/12/2001 Turm-Palast
Cologne 29/11 a 05/12/2001 Residenz
Berlin 05/12 a 12/12/2001 Filmtheater in den Hackeschen Höfen
Hamburg 05/12 a 12/12/2001 CinemaxX at the Dammtordamm

“Frei Leben”

– pela liberdade da vida Um concerto em benefício à luta contra a mutilação genital em mulheres está programado para aquecer Berlim no dia 25 de novembro. Conhecida como FGM (Female Genital Mutilation), a prática existe há séculos em vários países do mundo. Movimentos de emancipação, inclusive os que organizam o evento na capital alemã, lutam contra a vergonha e o medo acerca do tema e exigem o fim deste violento costume. por Bianca Donatangelo* As feridas corporais são irreparáveis e o trauma psíquico permanece por toda a vida. No entanto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 150 milhões de mulheres – na maioria africanas – são mutiladas em seus genitais, e cerca de 6000 por dia somam-se à lista.

Com a intenção de mobilizar o público e arrecadar verba para projetos que atuam contra a prática, o concerto “Frei Leben” acontecerá na próxima semana em Berlim. Dividirão o palco as artistas MFA Kera (Madagaskar), Djatou Touré (Costa do Marfim) e Gihad Gibreil (Sudão), além de especialistas médicas e ativistas envolvidas no assunto. “A consciência internacional precisa ser alertada quanto à verocidade deste ritual e contribuir para sua extinção. Não se trata de um costume tradicional, mas de uma brutalidade centenária”, afirma a cantora MFA Kera, que cresceu no Senegal e se considera “uma pessoa de sorte” por ter escapado da operação.

Djatou Touré, que há 6 anos mora na Alemanha, concorda e enfatiza a importância de “reunir esforços para que resultados efetivos aconteçam”. A artista, cujo destino não foi poupado pela navalha, escreve atualmente uma peça de teatro sobre sua experiência. Tanto a fundação Terre des Femmes, que em Burkina e outros países africanos acolhe mulheres que não querem se sujeitar à mutilação, e desenvolve projetos de reeducação e reintegração profissonal para as “cortadeiras”, quanto o BAIP, um grupo de aconselhamento às africanas que vivem em Berlim, serão beneficiados pelo evento. Inaugurado há apenas três meses, o BAIP (cuja sigla traduz-se por Projeto para Imigrantes Africanas em Berlim) já atendeu 200 mulheres. “As pessoas que nos procuram são mulheres que já sofreram a cirurgia ou que estão na eminência de sofrê-la”, explica a médica Mariatu Rhode, natural de Serra Leoa e sócia do grupo. “Procuramos amenizar o sofrimento das vítimas de todas as formas, desde o diálogo até o encaminhamento médico.

Por outro lado, tentamos quebrar o tabu entre as jovens, alertando principalmente para convites inexplicáveis de viagens à terra natal dos pais”, comenta referindo-se ao fato de que os adultos muitas vezes enviam sem explicação suas filhas para seus países ou tribos, forçando-as a obedecer a tradição.

Realizado durante a puberdade, o ritual baseia-se em vários motivos. “Ser mutilada pode significar ser aceita na comunidade, receber melhores ofertas de casamento, oferecer uma garantia contra o adultério e mostrar sua servidão à libído do marido”, conta Rhode.

Dos três tipos de mutilação da genitália feminina, a infibulação se caracteriza como o pior método. Nele, toda a região vaginal é cortada, restando apenas um pequeno furo do tamanho de uma cabeça de fósforos que permite o sangramento menstrual e as relações sexuais. Embora 30% dos bebês de mulheres mutiladas por infibulação nasçam mortos, o metódo é adotado em 85% dos casos no Sudão, Somália e Djibouti.

As operações são realizadas por mulheres, parteiras, curandeiros, barbeiros ou médicos em condições geralmente precárias. Como instrumentos, eles utilizam desde giletes de barbear até tesouras e cacos de vidro. Por conta da falta de higiene na maioria dos casos, somada à falta de informação quanto a necessidade de esterilização dos materiais, muitas infecções são degeneradas, entre elas AIDS e hepatite. “Somente entre as famílias mais poderosas, as mulheres são operadas com anestesias”, fala Rhode. “Outro problema é o descuidado com os pontos.

Inflamações crônicas da cicatriz são consequências comuns e centenas de mulheres sofrem terríveis dores toda vez que vão urinar, menstruar ou ter uma relação sexual”, finaliza a médica, que discursará no evento. 25 de Novembro de 2001, a partir das 18 horas. Local: na igreja do Tempholfer Feld (Wolffring 72, Berlim). Acesso: pela estação do metrô ‘! Platz der Luftbrücke’ ou pelas linhas de ônibus 184 e 140. Preço: 20 DM

*jornalista brasileira residente em Berlim E-mail: biadona@hotmail.com Telefone: *49 30 4991 5419